18/02/2019

A fantástica fábrica de Smart Cities: As Smart Labs

Songdo,  Tianjin Eco-City, Masdar e Malmo Bo01 são as cidades do futuro que já existem e servem de laboratório de urbanismo para o Brasil e para o mundo

Elas são áreas planejadas em cada detalhe, seja ambiental, seja em termos de funcionalidade, cujos habitantes vivem o conceito de sociedades sustentáveis, nas quais as decisões são tomadas com base em big-data e inteligência artificial


Para nascer, Songdo, na Coreia do Sul, empurrou o mar e se ergueu sobre o terreno conquistado.  A Eco-City de Tianjin, que fica a 150 quilômetros de Beijing, é fruto de uma cooperação internacional entre China e Cingapura. Masdar, nos Emirados Árabes, venceu o calor do deserto com o uso da energia solar.  Um processo contrário, mas igualmente natural, foi adotado em Bo01, em Malmo, na Suécia, que extrai calor subterrâneo para aquecer casas e edifícios de escritório e fábricas do distrito. Por necessidade, essas cidades levaram ao ápice as capacidades tecnológicas de planejamento de ocupação e o uso do espaço urbano e de geração e conservação de energia. 

Nessas cidades-laboratório, o trânsito, as seguranças pessoal e patrimonial e as exigências de saúde da população são gerenciadas por computadores e tratadas como fenômenos interligados. Assim, os semáforos são sincronizados em tempo real conforme as exigências do tráfego de veículos e pedestres, enquanto o transporte urbano de massas obedece rígidos esquemas de obediência a horários e modulações de oferta de veículos em absoluto acordo com a demanda. 

As soluções testadas em Songdo, Tianjin, Masdar e Malmo são de uso potencial em outras grandes cidades do planeta que estejam lutando para se adaptar ao aumento geométrico das populações urbanas, tendência irreversível neste começo de século XXI. Três em cada dez pessoas viviam em cidades nos anos 1950, segundo a ONU. Na virada do milênio, cinco em cada dez, a metade da população mundial, era urbana. 

Os dados de 2014 mostram que, naquele ano, pela primeira vez na história humana, a população urbana superou em número a de moradores no campo. O ritmo de urbanização aumenta a cada ano e não dá sinais de se estabilizar. As projeções para o ano 2050 dão conta de que, na metade deste século, 66% de todos os terráqueos estarão vivendo em cidades. A taxa de urbanização no Brasil é das mais altas, superando em muito a média mundial. O dados do IBGE mostram que, já em 2010, a taxa de urbanização do Brasil era de 84% - contra 16% de moradores do campo. 
(IBGE)

As cidades que se utilizam fortemente de recursos tecnológicos para abrigar mais gente com melhor qualidade de vida são chamadas de “inteligentes.” Essa denominação anda um tanto desgastada pelo abuso de sua utilização e por seu significado ser tão amplo a ponto de, em muitos casos, não significar nada muito especial. Por essa razão, é necessário que se faça aqui uma tentativa de explicar melhor o conceito de “cidade de inteligente”. Basicamente, uma cidade inteligente é uma área urbana que faz uso de diferentes tipos de sensores de coleta de dados digitais capazes de fornecer informações úteis para o gerenciamento eficiente de recursos escassos – sejam eles o espaço urbano, o tempo dos moradores ou água e ar de qualidade. Em uma cidade inteligente, todo mundo contribui com dados para melhorar a gestão dos recursos. Os moradores, seus carros, os ônibus, metrôs e trens estão constantemente alimentando, com dados, os centros de processamento. 

O ideal é que esses dados permitam ações em tempo real na alocação de recursos. A maioria das decisões sobre demandas de espaço urbano e energia são feitas atualmente com base em estimativas. O número de automóveis que vai cruzar os pedágios nos feriados de verão, por exemplo, são estimados com base em diversas variáveis, entre elas os dados históricos, o atual estado da economia e as previsões climáticas. Com o tempo, essas estimativas vão se tornando cada vez mais exatas. 

O racionamento de energia elétrica vai se tornar simples e eficiente quando, em um futuro próximo, todos os aparelhos consumidores de eletricidade de todas as residências – lâmpadas, liquidificadores ou aspiradores de pó - estiverem equipados com chips, de modo que as subestações tenham informação instantânea da demanda. A maioria dos apagões, que causam tantos prejuízos, são resultado de falta de sintonia entre a demanda e a energia oferecida. Nas cidades inteligentes, o volume de energia distribuída é exatamente igual à demanda, tornando os apagões eventos desagradáveis do passado.

Nas cidades inteligentes - termo que ganhou terreno, substituindo outros como “cybervila” ou “flexcidade” e “MESHcity” - os sistemas de tráfego e transporte, usinas de energia, redes de abastecimento de água, gerenciamento de resíduos e mesmo a aplicação da lei são feitos com base em dados coletados e processados enquanto os eventos acontecem. Isso só é possível com a integração de tecnologias de informação e comunicação (TIC) alimentadas por dispositivos físicos conectados no que se conhece hoje como IoT – ou Internet das Coisas. A multiplicação de áreas urbanas que fornecem em tempo real dados sobre seu funcionamento é um dos pontos principais da “Agenda Digital para a Europa”, que os países da União Europeia estão implantando. A Agenda Digital considera essencial o foco nos programas de coleta e análise instantânea de dados da vida urbana, principalmente porque isso torna o gasto público mais eficiente. 

Southampton, na Inglaterra, Amsterdã, na Holanda, Madrid e Barcelona, na Espanha, e a capital sueca, Estocolmo, estão testando isoladamente diversas dessas tecnologias com resultados animadores. No entanto, Songdo, Tianjin, Masdar e Malmo são as cidades em que as tecnologias do futuro funcionam com maior integração e uso simultâneo.

Primeira cidade inteligente do mundo, Songdo, na Coreia do Sul, começou a ser construída em 2005, com um custo de projeto de 35 bilhões de dólares. Songdo é servida por um sistema de canais para táxis aquáticos, o que alivia o tráfego ao mesmo tempo que torna a paisagem urbana mais harmônica e agradável. Os prédios estão sendo construídos com estruturas que lembram ondas, uma homenagem visual à origem da cidade, erguida sobre terreno antes ocupado pelo Mar Amarelo. 

Quando a cidade estiver concluída, todos os estacionamentos de prédios terão estações de carga para veículos elétricos. A coleta automática de lixo por aspiração é uma das experiências mais admiradas de Songdo. Os sacos de lixo são depositados pelos moradores em coletores especiais que levam os dejetos para uma esteira rolante subterrânea, que os transporta para os processadores fora da cidade.

A primeira cidade supranacional do mundo fica na China, mas é considerada também parte de Cingapura. Ela começou a ser construída em 2008, pelo consórcio privado Tianjin Eco-City Investment and Development Co. Ltd. Seu planejamento urbano foi feito com base na ideia de aproximar áreas residenciais, de trabalho e lazer e, dessa forma, reduzir os deslocamentos e o uso desnecessário de veículos.

Uma das metas para o ano de 2030, quando a cidade deve ser concluída, é que 90% dos deslocamentos urbanos sejam não motorizados ou por transporte público. Outra meta é reciclar 60% do lixo da cidade. A proteção ambiental, a conservação de recursos e o uso racional de energia em Tianjin servirão de modelo para o desenvolvimento sustentável de outras cidades da China. 

As tecnologias de conhecimento e gerenciamento aplicadas em Tianjin, porém, nos interessam particularmente por serem “replicáveis e escaláveis”, ou seja, são facilmente exportáveis para outras cidades do mundo interessadas e foram feitas para se adaptar facilmente ao crescimento populacional e urbano.  

A cidade de Masdar, nos Emirados Árabes, é uma iniciativa do governo colocada em prática pela empresa pública Mubadala Development Company. Ela está situada a 17 quilômetros da capital, Abu Dabi. Painéis de energia solar são responsáveis pelo abastecimento total da energia elétrica utilizada. 

Masdar é um feito urbanístico extraordinário, mas de difícil reprodução em situações onde não existam as mesmas circunstâncias favoráveis de abundância de recursos e disposição governamental férrea. Com Tskukuba, no Japão, Masdar deve ser muito mais uma vitrine da capacidade tecnológica urbana. A cidade que domou o deserto foi feita para abrigar preferencialmente institutos de pesquisa tecnológica e empresas digitais de ponta. O transporte em Masdar é feito majoritariamente por ônibus elétricos, linhas de trem e metrôs leves. O Personal Rapid Transit (PRT) conecta o centro com partes mais distantes da cidade. 

O distrito tecnológico Bo01 de Malmo, na Suéca, foi implantado em uma área antes ocupada por um porto desativado, cercado de águas altamente poluídas. O lugar foi transformado em um bairro residencial, ecológico e sustentável, onde fica a sede da universidade de Malmo. Na Cidade do Amanhã, como está sendo chamado pelos suecos o distrito Bo01, áreas verdes, parques e lagos são ladeados por edifícios construídos para serem exemplos de habitações ambientalmente sustentáveis. 

A água da chuva é recolhida e drenada pelos lagos, canais e coberturas verdes. Parte dos ônibus funciona com biogás produzido a partir dos restos orgânicos do bairro. Assim como em Songdo, parte dos resíduos é recolhida por um sistema subterrâneo, por aspiração.
Um dos prédios emblemáticos é o arranha-céu Turning Torso, de 190 metros de altura. Todos os departamentos do edifício têm sensores individuais de consumo de energia.