26/12/2018

Infraestrutura para garantir o abastecimento de água

Resgatar o ciclo natural e criar cidades mais permeáveis estão entre as metas urbanas mundiais.

Há dois anos, São Paulo viveu uma grave crise hídrica que incluiu a interrupção do abastecimento em várias localidades. O risco de ficar sem esse recurso natural na cidade ainda é latente, e não é uma exclusividade brasileira. Por todo o mundo, várias metrópoles estão perto do limite da escassez, convivendo com o contraste entre a falta de água e inundações nas épocas mais chuvosas. Tóquio, Moscou, Cidade do México, Los Angeles, Pequim, Londres e Jacarta são alguns exemplos.

Hora de reforçar a capacidade de buscar água em pontos mais distantes e construir mais canais e reservatórios, certo? Não, não é bem assim. A saída aponta para outra direção, para soluções baseadas na natureza, ou SBN.

Durante décadas, em alguns casos séculos, o desenvolvimento urbano levou as grandes cidades a impermeabilizarem seu solo. Quase tudo virou espaço construído, inclusive a forma de conduzir rios, chuva e esgoto. Esse modelo se sustentou por muito tempo, mas é evidente que chegou a um limite. E, para mudar o rumo do processo, é preciso fazer com que as cidades tenham mais capacidade de simular o ciclo natural.

Muitas das práticas sugeridas são adotadas por populações nativas. Segundo o estudo, povos como os indígenas do Vale Puebla-Tlaxcala, no México, são responsáveis por cuidar de 22% da superfície da Terra e protegem cerca de 80% da biodiversidade do planeta, mesmo representando apenas cerca de 5% da população mundial. No entanto, essas técnicas recebem apenas 1% do investimento em pesquisa no setor.

Há exceções nesse cenário. Na China, o governo local lançou, em 2015, uma política para transformar as 16 principais metrópoles do país em “cidades-esponja”, nas quais 80% de suas áreas urbanas seriam capazes de absorver até 70% das chuvas. Várias medidas já estão sendo adotadas, como tetos verdes, áreas alagadiças e pavimento permeável. O projeto chinês é ambicioso, pois estabeleceu apenas cinco anos como prazo para atingir as metas estabelecidas.

Nos Estados Unidos, essa preocupação é particularmente grande na Califórnia, um estado em grande crescimento econômico e urbano, mas com problemas históricos de recursos hídricos (o sistema que abastece Los Angeles foi visto como um dos maiores projetos de engenharia do século 19). Na região da Baía de São Francisco, autoridades e a comunidade - na qual se inclui a cidade de São Francisco e o Vale do Silício, sede de algumas das maiores empresas de tecnologia do mundo - criaram parcerias para formar mais profissionais especializados na busca de novas soluções para a gestão de recursos hídricos.

Comenta o jornalista Denis Russo Burgierman, diretor do Cidade Azul, projeto que mapeia os rios e córregos de São Paulo. “Recentemente, apresentamos um projeto para o Rio Verde, no bairro da Vila Madalena (São Paulo), hoje canalizado. Muito morador foi contra, pois viam o rio como local de acúmulo de sujeira e vetor de doenças”, diz.

Outro problema é a falta de incentivo para quem busca soluções para tornar as cidades brasileiras mais permeáveis. “Um arquiteto já me contou que foi consultado sobre incorporar alguns conceitos no projeto de um edifício, mas tudo acabou descartado porque era preciso cortar custos e isso não era prioridade”, relata Burgierman.