27/12/2018

Infraestrutura aeroportuária é critério para expansão de empresas

A escolha da nova sede da gigante Amazon levou em conta a oferta de uma boa infraestrutura aérea para acelerar seus planos globais.

A Amazon é superlativa. É a empresa de varejo com maior valor de mercado dos Estados Unidos, a quarta maior com capital aberto do mundo, a que tem o maior faturamento em toda a internet e a oitava maior empregadora norte-americano, segundo dados levantados pela revista americana Forbes. Quando uma gigante como essa anuncia a abertura de uma segunda sede, com promessa de investimento de US$ 5 bilhões e geração de até 50 mil empregos fixos, várias cidades ficam em alerta, de olho nos milhares de empregos e bilhões de dólares que viriam juntos. Claro, muitas prefeituras e governos estaduais fizeram suas propostas, apresentando terrenos, incentivos fiscais, capacidade da mão de obra local e… seu aeroporto.

Para a maior empresa de vendas online do mundo, a infraestrutura aeroportuária é fundamental para a rápida remessa de produtos como livros, eletrônicos, videogames, brinquedos, roupas e até móveis. Ainda mais quando a Amazon se movimenta para ter seu próprio sistema de distribuição, dependendo cada vez menos dos serviços de empresas de remessas como FedEx, UPS e DHL. 

“Estar próximo de uma infraestrutura de transporte, no caso aéreo, é fundamental para a redução dos custos totais da cadeia de distribuição. Permite, por exemplo, que as cargas sejam entregues nas companhias aéreas mais próximas dos seus horários-limite para recebimento/despacho”, explica Hernani José Roscito, consultor especializado em projetos de supply chain. “Para as empresas varejistas, isso significa poder aumentar o número de pedidos despachados no mesmo dia, já que seus pontos de corte de expedição podem ser estendidos. ”

A Amazon já divulgou sua lista de 20 regiões metropolitanas finalistas para receber sua nova sede, mas não disse quais eram exatamente suas exigências ou necessidades prioritárias. De qualquer modo, o setor de logística avalia a vantagem que cada candidata pode ter com seus aeroportos. A OAG, empresa de consultoria britânica especializada em análise de informações de transportes aéreos, fez um ranking dos aeroportos das cidades que estão no páreo. Foi considerada a quantidade de voos diretos para outros grandes mercados, de voos internacionais e de voos diários nonstop para Seattle (sede principal da Amazon). Por essa análise, Nova York ficou com a primeira posição, seguida por Chicago, Los Angeles, Atlanta, Dallas, Denver, Miami, Toronto, Washington e Nashville.

Esse é o cenário considerando apenas a situação atual dos aeroportos. Dependendo dos planos da Amazon, porém, esses dados podem se tornar menos importantes. Gigantes de logística movimentam uma quantidade tão grande de produtos que criaram seus próprios sistemas de transporte aéreo, com aviões exclusivos e terminais de cargas construídos especificamente para atender às suas necessidades. As dimensões são assombrosas. A FedEx tem seu principal hub no aeroporto de Memphis, usando um espaço de 315,9 mil metros quadrados, quase o dobro do dedicado a passageiros. A UPS tem números ainda mais impressionantes em Louisville. O terminal de passageiros tem 10.630 metros quadrados, enquanto que o terminal de cargas específico da empresa conta com 483 mil metros quadrados.

Essas estruturas são localizadas estrategicamente no meio-oeste americano, por serem próximas do centro populacional dos Estados Unidos. Com isso, servem de ponto intermediário para as remessas expressas. A Amazon deve fazer algo parecido na mesma região, pois comprou uma área de 859 mil m², próxima ao aeroporto internacional de Cincinnati, em 2017. No local, será investido US$ 1,5 bilhão para a Amazon Air, companhia aérea que a Amazon criou para realizar suas entregas. De acordo com um comunicado da empresa, a “localização centralizada e com grande conectividade com nossas futuras sedes” foi um fator determinante na escolha de onde implantar seu hub.

Investimentos pesados como esses fazem sentido para multinacionais que trabalham com entregas para todo o planeta. “A instalação ou ampliação do setor de cargas em aeroportos estão diretamente ligadas ao potencial econômico da região, em se havendo empresas cujos volume de cargas justifiquem a infraestrutura”, afirma Roscito. “Isso só é possível em economias estáveis, que permitam projetar o retorno do investimento a longo prazo.”

Para o Brasil, operações eficientes podem tornar um aeroporto mais competitivo e atrativo para empresas de cargas, mas em uma dimensão mais adequada à nossa realidade. “Operações de cargas e passageiros podem compartilhar a mesma infraestrutura, mas com terminais exclusivos para as empresas de encomendas expressas ou cargas em geral. Com isso, o custo tende a ser mais competitivo, sobretudo se houver agilidade interna no processo de recebimento ou entrega de mercadorias”, avalia Roscito.

Outro fator crítico para as cidades brasileiras é a infraestrutura no entorno dos aeroportos. “A análise deve considerar aspectos como trânsito ou restrições de acesso até o aeroporto, e se há vias com picos de tráfego que possam impactar de forma significativa os horários de entrega para o despacho”, conclui o consultor.